Como devo medir a eficiência de um obreiro no campo missionário?

Quando o assunto é missões esta é (certamente) uma das perguntas mais importante, que normalmente é feita pelas igrejas e pastores mantenedores da obra missionária. Qual termômetro deve ser levado em consideração quando o assunto é medir a performance de uma obra? Seria a quantidade de pessoas alcançadas? Quantidade de convertidos e/ou batizados? Ou o tempo médio em que o missionário prega por semana? Eu poderia lhe dar dezenas de respostas, mas ao invés disso vamos ver o que a Bíblia diz a respeito deste assunto: Em 1 Coríntios 3.6 e 7 diz assim: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento”​. Outro texto das Escrituras que pode nos ajudar a clarear um pouco mais o assunto é o típico texto (muito usado em missões) de Mateus 28: 19 e 20, que diz: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar​ todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.”​ Partindo dos versos apresentados acima eu gostaria de levantar 3(três) pontos importantes sobre a eficiência missional.

Pluralidade

Olhando com atenção a passagem de 1 Coríntios 3 nós podemos observar que “fazer missões” quase nunca é uma tarefa exclusiva, onde uma só pessoa semeia, planta, rega e colhe os frutos, tudo em uma mesma época. Mas vemos uma tarefa coletiva, onde uma pessoa planta, dias depois uma ou mais pessoas regam, sem saber que o crescimento virá dias ou até meses depois, até que tudo fique pronto para a colheita. Note que Paulo não estava preocupado se seria ele ou não que ganharia aquela pessoa para Jesus, e muito menos se essa pessoa se tornaria ou não um membro local. A sua genuína preocupação estava em pregar o evangelho, em outras palavras: “semear a boa semente”. Agora me diga uma coisa, quais são os frutos de uma pessoa que semeia? Eu te respondo. Nenhum! Não existem frutos físicos e quantitativos na época do cultivo, não é tempo de colheita, mas tempo de labuta. Creio eu que um dos objetivos dessa pluralidade é para que ninguém se glorie de seu próprio trabalho no campo, para que ninguém diga “foi com o meu esforço que estas pessoas foram salvas, EU as ganhei para Jesus…”, certamente não é isso que Deus quer. Para que toda glória no campo missionário seja dada a Deus, é necessário que exista diversos lavradores. Portanto, dado que fazer missões nem sempre é colher, não é possível medir a eficiência de uma obra pelos seus frutos (físico), como quantidade de convertidos, batizados ou frequentadores do culto dominical, portanto este não o nosso indicador principal de performance ministerial.

 

Perseverança

É interessante como a mente humana trabalha, fixando frases em nosso cérebro a ponto de não as esquecermos por anos, mas ao mesmo tempo causticando determinados detalhes desta mesma frase impedindo assim uma visão fora daquilo que já foi formatado em nós. Eu vou dar um exemplo: O que você (leitor) pode me dizer de Mateus 28:19 e 20? Se a sua resposta for: “Ir, fazer discípulos e ensinar as ordenanças”, meus parabéns, está correta, mas ao mesmo tempo você pode estar preso em uma sistemática criada pela sua própria mente, com o objetivo de facilitar a memorização. Agora eu vou dizer algo que está explícito nestes versículos mas poucos acabam vendo, a “perseverança”. Quando lemos “Portanto ide, fazei discípulos…batizando-os… ensinando-os…” você começa a entender que essa ação não é uma ação formatada, como um projeto de começo, meio e fim. Mas sim como um processo, contínuo, ininterrupto e durativo, dando sempre um sinal de continuidade. Partindo desta ótica eu quero que você (leitor) atente-se para a palavra “ensinando-os”. Note o “ando-os” no final. Neste contexto ensinar é um processo contínuo, um discipulado, uma mentoria de prazo indefinido, tornando-se assim impossível estimar um término que possa ser quantificado em uma estatística. Agora vamos nos colocar no lugar do missionário que segue piamente as orientações de Mateus 28. Ele está no campo (possivelmente em uma outra cultura), pregando o Evangelho, fazendo discípulos, batizando-os e continuamente ensinando-os a guardar as Escrituras perseverantemente. Ou seja, seu foco não está no término, mas no processo de santificação da obra. Um outro modo (figurado) de se pensar é: discipular é como cuidar de ovelhas, onde há sempre a necessidade de tirar os picões e pulgões do pelo, guiando-as para o caminho certo e sempre zelando pela sua estadia no aprisco. Ovelhas sempre serão ovelhas, é de sua natureza se sujar, se machucar e até mesmo fugir quando não cuidada*. Por isso podemos dizer: Sempre haverá trabalho. Portanto, apesar da perseverança ser um forte traço na teologia missional ela não deve ser o principal parâmetro em seu indicador de performance. Contudo ela não deve ser descartada, pois se trata de um ponto qualitativo essencial para o sucesso ministerial.

 

Fidelidade

Comparando as duas passagens que foram citadas no início (1 Coríntios 3.6–7 e Mateus 28:19–20), apesar de serem orientações (um tanto) distintas entre elas, há algo em comum que ao meu ver é essencial para o cumprimento da obra: A Fidelidade de Deus agindo através da colaboração humana. Difícil de entender? Explico: Atente aos seguintes trechos: ” …mas o crescimento veio de Deus…​”, “…mas Deus, que dá o crescimento…​” e “…e eis que eu estou convosco todos os dias,…​”. A confiança do homem não deve estar em seu braço, mas em Deus, pois é Ele quem conduz o homem ao verdadeiro sucesso ministerial. Portanto, se não há fidelidade, a semente não germina, a planta não cresce, não há colheita, logo, o IDE torna-se em vão. Bingo! Eis ai um dos principais indicadores de performance que estávamos procurando, a “fidelidade”.

Com isso podemos afirmar que: o sucesso no campo significa, antes de tudo, fidelidade: Avaliar se o missionário está ou não pregando fielmente a Palavra de Deus e vivendo uma vida em conformidade com a Palavra. Um obra fiel e bem sucedido pode não apresentar frutos de imediato, mas quando frutifica o número de pessoas ganhas para Jesus não é o único fator a ser considerado, mas o quanto os membros estão crescendo em santidade, quantos líderes nativos estão sendo treinados e levantados, quantos membros estão cumprindo o ide em outras localidades, e assim por diante. Tais fatores são muito mais ricos e mais complexos, e são (de modo geral) os melhores indicadores de uma missão bem sucedida em Cristo.

*Neste trecho eu faço um paralelismo entre a ovelha e a natureza pecaminosa do homem, ambos sempre tendenciosos ao erro ou pecado.